segunda-feira, 19 de março de 2012

“Só com má-fé e militância é possível discutir minha presença na ABL”, diz Merval Pereira


Merval Pereira - Crédito: Guilherme Gonçalves/ ABL
No emblemático ano de 1968, aos 18 anos, o jovem Merval Pereira entrou na redação de “O Globo” como repórter-estagiário para galgar, pouco a pouco, as funções de editor-chefe, diretor de redação, diretor executivo do Infoglobo e diretor de Jornalismo de Mídia Impressa e Rádio das Organizações Globo.

Com passagens pela Veja, entre 1982 e 1985, onde foi chefe das sucursais de Brasília e Rio, e editor de nacional em São Paulo, e pelo Jornal do Brasil, como editor-executivo, hoje é colunista de O Globo, comentarista político do Globo News e Rádio CBN, e membro do Conselho Editorial do conglomerado carioca.

Autor dos livros “A segunda guerra, sucessão de Geisel”, série de reportagens escritas com André Gustavo Stumpf, e “O Lulismo no Poder” (2010), compilação de artigos feita durante os governos Lula, foi eleito em 2011 para ocupar a cadeira 31 da Academia Brasileira de  Letras (ABL), batendo o escritor baiano Antônio Torres por 25 votos a 13.

Em entrevista exclusiva à IMPRESA, o imortal elogia o jornalismo político brasileiro, critica os jornalistas que questionam sua presença na ABL – “Só com má-fé e militância política é possível discutir minha presença na Academia” – e não foge do velho debate entre direita e esquerda.
Para Merval, uma nova liderança conservadora no país seria positiva para a política nacional. Rejeita, porém, qualquer rótulo pelo posicionamento. “Mas aí acham que sou ‘de direita’, o que é uma simplificação constrangedora”.


JORNALISMO

IMPRENSA – O que pensa do jornalismo político praticado no país? Como o repórter da área se diferencia e quais falhas devem ser evitadas?
MERVAL PEREIRA – É de muito boa qualidade, como a média do jornalismo praticado no país. É preciso conhecer História, e não apenas a do Brasil, mas se trata, basicamente, de ter boas fontes de informação e saber tirar ilações dos fatos que estão ocorrendo, para não ficar apenas tratando do dia-a-dia. Quando comecei a trabalhar n’O Globo, fui fazer Esportes, estimulado pelo Evandro Carlos de Andrade, que me disse que as politicagens dos bastidores esportivos são muito semelhantes às do futebol, e estava certo. Foi um bom aprendizado. A maior falha é a mesma em qualquer setor: ficar refém das fontes, sem entender quando está sendo manipulado.

Lula e Franklin Martins trabalharam duro pelo projeto de regulação da mídia. Dilma tem, ao menos aparentemente, se esquivado do projeto. Você vê traço autoritário no projeto? Acha que ele ainda possa ter sobrevida na gestão Dilma?
Espero que não tenha futuro, pois ele é elaborado com o intuito de controlar a mídia de maneira geral e montar mecanismos que permitam ao governo, através de órgãos a serem criados, exercer pressão sobre os jornalistas independentes. O escândalo que é o financiamento de blogs chapas-brancas por bancos estatais e outros mecanismos é um claro exemplo de que o governo tenta montar um esquema midiático que trabalhe a seu favor, enquanto tenta aprovar uma legislação para constranger o exercício da livre imprensa.


DIREITA VS. ESQUERDA

Suas opiniões são, em geral, mais associadas às idéias ditas de “direita”, do que de “esquerda”. Você se considera “de direita”? Acha que ainda há espaço para esse tipo de distinção ideológica?
Essa sua definição tem mais a ver com a tentativa do PT de colocar todos os seus "adversários" no corner, como se fossem direitistas tacanhos, contra um governo "progressista" de esquerda. Nem o governo do PT é "de esquerda", nem todos os seus críticos são "de direita". Um governo que tem como principais apoiadores o Bispo Macedo, o PMDB, o PP, o PTB, o Sarney, o Renan Calheiros, o Jader Barbalho, não pode ser considerado de esquerda, não é mesmo? Da mesma forma, é até engraçado quem diz que o PSDB é um partido "de direita", ou que o Fernando Henrique ou o Serra são políticos "de direita". Quanto a mim, sempre fui mais ligado à esquerda, quando essa divisão ainda fazia sentido. Hoje, se levarmos em conta a definição de Norberto Bobbio, de que a esquerda está mais preocupada com a desigualdade do que a direita, eu poderia ser considerado "de esquerda". A questão é quando se discute como acabar com a desigualdade. Nesse caso, acho que as oportunidades devem ser iguais, a partir da educação, mas acredito que como os homens são desiguais entre si, sempre haverá diferenças pela inteligência, pela capacidade de cada um. Eu acredito que o Estado deva interferir para reduzir essa desigualdade, mas não creio que ele seja a solução do problema, e nesse caso eu poderia ser considerado "de direita".  

Em algum grau, ser associado à “direita” ainda é um problema, uma espécie de tabu, para quem atua na imprensa brasileira? A seu ver, por que isso acontece?
Não creio que seja tabu, mesmo por que a maioria da população é conservadora. Acho que na política partidária, sim, existe esse preconceito, tanto que nenhum partido quer ser classificado como "de direita". Aliás, o Brasil é talvez o único país do mundo em que não existem políticos "de direita", que defendam o conservadorismo. Eu defendo que seria muito bom para nosso desenvolvimento político que surgisse um líder conservador que não tivesse receio de defender suas teses. Mas aí acham que sou "de direita". É uma simplificação constrangedora.

Que tipo de valores, princípios e políticas esse líder deveria defender para o bem do debate político brasileiro?
Defenderia o programa que qualquer partido conservador defende mundo afora, com pequenas modificações: liberalismo econômico, estado mínimo para não se meter nas liberdades individuais. Valores conservadores, como a luta contra o aborto, por exemplo. Há o radicalismo conservador, como o de setores do Partido Republicano dos Estados Unidosmas há o liberalismo social, que considera que o estado deve intervir para garantir o estado de bem-estar social. A privatização de serviços públicos já foi uma bandeira dos partidos conservadores ou liberais, mas hoje é uma necessidade em qualquer regime.


ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Você tem uma longa e exitosa carreira no jornalismo, mas, na carreira literária, seu ex-concorrente pela cadeira 31 da ABL, Antônio Torres, tem obra mais prolífica e consolidada em termos de produção ficcional. Sua eleição para a ABL te pegou de surpresa?
Seria até engraçado eu dizer que minha eleição para a ABL me pegou de surpresa. Como se pode ganhar uma eleição desse jeito? Nunca, durante todos os meses de campanha, tive dúvida sobre minha eleição. A dúvida era sobre quantos votos eu teria. Mas isso não deveria surpreender a ninguém, pois é uma tradição da ABL ter jornalistas em seus quadros. É um equívoco, geralmente de má-fé, querer comparar a produção literária de um escritor profissional com a de um jornalista. São produções distintas dentro da literatura. Por que eu, com 44 anos de profissão, tendo exercido todos os cargos mais altos em redações distintas de jornais, revistas e televisão, escrevendo uma coluna diária de jornal há dez anos, tendo recebido os maiores prêmios jornalísticos do Brasil e do exterior, não tenho condições de disputar uma cadeira na ABL?

O que você pensa sobre muitas críticas veiculadas sobre sua eleição (um ex: Luís Nassif) de que sua eleição teve influência de um poder político da Globo?

O Castelinho, que, para mim, foi o maior de todos, teria sido beneficiado pela pressão do Jornal do Brasil, quando foi eleito? Teria sido eleito pelo livro de contos que escreveu, ou por sua história no jornalismo? No meu discurso de posse fiz uma relação de dezenas de jornalistas que passaram pela ABL. Só mesmo com má-fé, ou por militância política, é possível discutir a minha presença na ABL. É diferente de querer ter a unanimidade. É claro que muitos podem preferir outros jornalistas ou outros escritores - 13 acadêmicos votaram no Antonio Torres -, mas o que destaca a má-fé ou a politização da discussão é quando jornalistas discutem a presença de um jornalista na ABL. Isso é surpreendente e chega a ser engraçado.

Mudou alguma coisa na sua vida pessoal e profissional depois da eleição para a ABL?
Na profissional, nada, nem mesmo o cachê de minhas eventuais palestras. Na pessoal, além do reconhecimento de uma das mais importantes instituições culturais do país, ganhei o convívio semanal com vários amigos, novos e antigos, e um debate muito rico intelectualmente.


CONSELHO AOS JOVENS JORNALISTAS

Como vê as novas gerações de jornalistas? Daria um conselho a eles?
A única coisa que temo é que leiam pouco. Os novos hábitos tecnológicos estão levando a um conhecimento superficial e imediatista. É preciso ler muito, de livros técnicos a romances; de biografias a papers acadêmicos.

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